Arte brasileira em Sharjah
Assunto:
Resenha:
A Bienal de Sharjah, organizada pela Fundação de Arte de Sharjah, nos Emirados Árabes, vai apresentar trabalhos de 119 artistas, de 36 países, entre eles do Brasil, Argentina, Chile e Bolívia.
Marina Sarruf
São Paulo – A 10ª edição da Bienal de Sharjah, nos Emirados Árabes, vai apresentar obras de 119 artistas, de 36 países, entre eles do Brasil, Argentina, Chile e Bolívia. O tema dessa edição é Plot for a Biennial, que na tradução livre quer dizer Roteiro para Bienal. A mostra de arte contemporânea será realizada de 16 de março a 16 de maio e é organizada pela Fundação de Arte de Sharjah.
A curadoria da mostra escolheu 65 obras de última geração em artes visuais, filmes, músicas, performances e vídeos. O tema da Bienal, programado para ser uma narrativa de roteiro de filme, traz como palavras-chaves: traição, necessidade, insurreição, afiliação, corrupção, devoção, divulgação e tradução.
A curadora brasileira Solange Oliveira Farkas é quem vai apresentar um programa de vídeos realizados por artistas da América Latina na mostra dos Emirados. “O programa é uma resposta à intrigante proposta da equipe de curadores da Bienal, que quer tratar de resistências, fronteiras e utopias. As obras que o compõem lançam mão de estratégias originais para falar da realidade sul-americana”, afirmou Solange à ANBA por email.
De acordo com ela, os vídeos da mostra foram apresentados originalmente no Festival Internacional de Arte Contemporânea Sesc-Videobrasil, evento que foi criado há mais de 25 anos no Brasil. O objetivo desse festival é mostrar a arte produzida atualmente no sul geopolítico do mundo, que abrange países da América Latina, África, Europa do Leste, Oriente Médio, sudeste Asiático e Austrália.
Segundo Solange, o festival, que vai ser realizado em setembro e está em sua 17ª edição, parte da ideia de que essas regiões têm muito em comum, assim como a produção artística emergente presente nesses países. Solange, que é presidente da Associação Cultural Videobrasil, foi convidada para participar da Bienal de Sharjah.
O programa da mostra nos Emirados reúne obras de artistas como Jonathas de Andrade, Roberto Bellini, André Denegri, entre outros artistas sul-americanos. O filme do brasileiro Jonathas de Andrade, por exemplo, chamado “4 mil disparos”, fez parte de um trabalho realizado em seis países na América do Sul. Segundo o artista em seu site, a obra “Documento Latinamerica-Condução à Deriva” é uma viagem de reconhecimento de território, partindo de um sentimento de amnésia histórica, que faz da “latinamerica” um lugar tão "uno" quanto descontínuo, um lugar ao qual se "pertence sem pertencer".
De acordo com Solange, a Associação Cultural Videobrasil está atenta há muitas edições de arte produzidas no mundo árabe. Em 2003, o 14º Festival Internacional de Arte Contemporânea Sesc-Videobrasil teve a participação especial de obras de artistas do Líbano, como Akram Zaatari e Walid Raad.
Curadora internacional
Solange é uma curadora internacional com 25 anos de carreira. Criou o Festival Internacional de Arte Contemporânea SESC-Videobrasil, referência para produção artística do sul geopolítico do mundo. A curadora esteve à frente de exposições no Brasil, Argentina e Espanha.
Entre 2007 e 2010, foi diretora e curadora-chefe do Museu de Arte Moderna da Bahia. Este ano, Solange também está entre os seis curadores convidados da 16ª Bienal de Cerveira, em julho, em Portugal. A curadora prepara ainda participações no festival Videoakt, na Espanha, em maio, e no projeto “An Ideal Library”, da curadora africana Koyo Kouoh.
Mais informações
Bienal de Sharjah
Site: www.sharjahart.org
Este Blog tem por função abrir reflexões e visibilizar o que se produz de arte contemporânea na Bahia. Sua estratégia principal é criar interlocuções entre artistas, críticos, curadores, poetas e pensadores da cultura de variados eixos de interesses. Este espaço será depositário de variadas formas de pensamentos que ajudem na compreensão dos processos contemporâneos que formam o perfil das ações culturais baianas e suas significações dentro do panorama brasileiro. Vauluizo Bezerra
domingo, 27 de fevereiro de 2011
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
ARTISTAS CRIAM ARTE, E MORREM EM GESTÕES CULTURAIS.
Vauluizo Bezerra
Eu entro nessa discussão para acabar com os equívocos movidos por ingenuidades e mistificações. É preciso lembrar que a condição de ser artistas envolve um PATHOS, uma morfologia psicológica que compõe a grande maioria dos artistas, não que sejamos loucos ou potenciais PSICOS, (ou sim, ou sim, parafraseando Caetano Veloso em negativo). Nossa função no mundo é operar com códigos que nos permitem às pessoas que trabalham noutra ordem cotidiana, abrimos sensos para elas e para nós, estendemos a compreensão sensível do mundo, pelas subjetividades e pela articulação intelectual que cada um possui em níveis diferentes. O sol está para todos, mas o conforto das sombras depende dos modos como operam um conjunto de fatores, sejam pela fatoração interna na gestão dee sua obra, seja pelo bom senso, seja pelas diferentes acepções éticas que cada um saca de seu bornal de surpresas. Essa novidade de indicar Leonel Mattos como diretor de instituição é primeiro, uma tremenda sacanagem com um homem que é meu amigo, conheço-o muito bem, seria trágico para a vida dele como artista ter que passar quatro anos lidando com processos, administrando coisas que ele não tem particularidades que é gestão, uma coisa é organizar uma série de exposições criticáveis em suas modelações conceituais, outra é pensar e gerir num nível macro. Leonel é um fazedor intuitivo, o que não é um defeito, é uma qualidade enquanto artista, mas se o enviamos ao cadafalso das gestões culturais será um completo desastre. Impossível ver Leonel lidando com linguagens que nada significarão para ele, porque ele reconhece o que se processa na Bahia, e um Museu ou qualquer instituição que venha a ser, exige pelas suas condições de aberturas para a exterioridade que necessita de um jogo de conhecimento que ele não dispõe, exigi-se de um crítico, um curador tal conhecimento que primeiro passa pela consciência do que ocorre no mundo com um aparato de conhecimento científico, para isso alguém que deve gerenciar o MAM por exemplo, tem que ser municiado por uma noção teórica da arte, por um saber modelador de fatores que constroem as conjunções contemporâneas, é algo complexo que nem todo artista dispõe, e os que dispõem sabem dos sacrifícios que sua condição de artista sofrerá. Cito o caso de Zivé Giudice, que dirigiu o MAM por quatro anos e levou vinte anos para recuperar seu status qualitativo, que ocorre agora, somente agora decorrido quase trinta anos. Cito também o caso emblemático de Emanuel Araújo, que se tornou um dos mais eficientes e festejados curadores brasileiros. Pergunto: o que aconteceu com sua obra? Ficou refém de adornos enganosos, uma obra de anos sacrificada pela desarticulação de pensamento à própria obra por conta de seu distanciamente em relação à mesma. Um artista caracterizado pelo que um crítico americano chamou de Geometria Afetiva, eivada de proposições identitária em sua estrutura, visível como obra planejada sob o viço da africanidade pelos auspícios de suas disposições geométricas evocativas do cubismo e das recentes conquistas históricas do concretismo/neo-concretismo, uma fala afro-baiana sofisticada e bem sucedida, se vê hoje pateticamente enfeitadas de conchas em paráfrases estranhíssimas do religioso-artista Mestre Didi, que perdoem os seus construtores,o considero uma tremenda mistificação que serve à nossa ignorância pela arte e o olhar desavisado de estrangeiros duvidosos. Porque não se discute na Bahia a obra de outro sacerdote que articulou soberbamente a arte ocidental e a iconografia afro-baiana como Rubem Valentim? a Bahia deve a Rubem Valentim no mínimo uma festa de largo pelo que soube processar arrematando o saber estruturalista e seu envolvimento de corpo e alma com os símbolos e a religião afro-baiana. Falar ainda de Gestores Artistas sou obrigado a citar outras pessoas que me são caras como amigos, e também de formas diferentes sacrificados pelos seus envolvimentos com a política cultural. Juarez Paraíso teve seu gênio potencial tolhido pela política. É certo que ajudou a construir uma mentalidade baiana pelos idos dos 60, 70, mas uma mentalidade que por muitos motivos, inclusive a regência militar, nos jogou numa condição suburbana, sua inclinação xenófoba a téoricos cariocas como Paulo Sergio Duarte e Ronaldo Brito, foi um desserviço para nossa amplitude. Porque ele disse certa vez, "Deixem os sábios cariocas no lugar que lhes pertencem". Chico Liberato em duas ou três gestões foi mais aberto, nos trouxe Frederico de Moraes, o próprio Paulo Sergio Duarte, tentou trazer a rica experiência do Núcleo de Arte Contemporânea da Paraíba fundada por P. Sergio Duarte, Raul Córdula e Antônio Dias, nos trouxe de Brasília
Rubem Valentim para falar de sua obra em produtivas conferencias no MAM. Produziu a Exposição Cadastro, e algumas mostras que setorizavam conceitos da produção baiana na que considero a mais rica e ilustrativa gestão de um artista que era subsidiado pela inteligência do arquiteto Pasqualino Magnavita, ainda hoje com uma admirável lucidez com seus mais de 80 anos. Mas pergunto, onde foi parar o artista Chico Liberato, fora suas esporádicas animações? Sacrificado em produções cuja potencia pálida pelo distanciamento que produzir arte requer. Gestor de Museu jamais deve cair em mãos de artistas tão pouco Museólogos que são destituídos das noções específicas que lidar com o meio de arte em sua completude requer. A direção de um Museu deve ser exercida por um profissional que tenha em seu currículo experiência acadêmica e vivencial com os problemas da arte, conhecimento de gestão na especificidade que os problemas da arte e produção, fruição, expositividade, interatividade com outros meios, etc. Por isso sou a favor de Comissões Curatoriais como forma de descentralizar decisões nas mãos de um único gestor. Um Museu passa pela idéia de se criar discursos efetivos e articulados em espraiamentos de interlocuções com o resto do Brasil e do mundo. Pensar as especificidades da cidade e agir com pertinência às necessidades comunitárias, abrindo-as para a educação, desenvolvendo novas gerações abertas às complexidades do mundo. Ainda ontem à noite, conversava com Almandrade, pessoa que tem uma produção reflexiva sobre tais questões ao menos do ponto de vista teórico, pensa bem, e é um portador de idéias que devem ser aproveitadas no mínimo como integrante das Comissões Curatoriais que ele também é defensor. Admito um artista na gestão de políticas culturais como um ser complementar a criar e defender idéias que qualifiquem melhor nosso meio de arte, mas nunca delegar a um artista sem o devido aparelhamento as responsabilidades complexas que a gerencia cultural requer.
Vauluizo Bezerra
Eu entro nessa discussão para acabar com os equívocos movidos por ingenuidades e mistificações. É preciso lembrar que a condição de ser artistas envolve um PATHOS, uma morfologia psicológica que compõe a grande maioria dos artistas, não que sejamos loucos ou potenciais PSICOS, (ou sim, ou sim, parafraseando Caetano Veloso em negativo). Nossa função no mundo é operar com códigos que nos permitem às pessoas que trabalham noutra ordem cotidiana, abrimos sensos para elas e para nós, estendemos a compreensão sensível do mundo, pelas subjetividades e pela articulação intelectual que cada um possui em níveis diferentes. O sol está para todos, mas o conforto das sombras depende dos modos como operam um conjunto de fatores, sejam pela fatoração interna na gestão dee sua obra, seja pelo bom senso, seja pelas diferentes acepções éticas que cada um saca de seu bornal de surpresas. Essa novidade de indicar Leonel Mattos como diretor de instituição é primeiro, uma tremenda sacanagem com um homem que é meu amigo, conheço-o muito bem, seria trágico para a vida dele como artista ter que passar quatro anos lidando com processos, administrando coisas que ele não tem particularidades que é gestão, uma coisa é organizar uma série de exposições criticáveis em suas modelações conceituais, outra é pensar e gerir num nível macro. Leonel é um fazedor intuitivo, o que não é um defeito, é uma qualidade enquanto artista, mas se o enviamos ao cadafalso das gestões culturais será um completo desastre. Impossível ver Leonel lidando com linguagens que nada significarão para ele, porque ele reconhece o que se processa na Bahia, e um Museu ou qualquer instituição que venha a ser, exige pelas suas condições de aberturas para a exterioridade que necessita de um jogo de conhecimento que ele não dispõe, exigi-se de um crítico, um curador tal conhecimento que primeiro passa pela consciência do que ocorre no mundo com um aparato de conhecimento científico, para isso alguém que deve gerenciar o MAM por exemplo, tem que ser municiado por uma noção teórica da arte, por um saber modelador de fatores que constroem as conjunções contemporâneas, é algo complexo que nem todo artista dispõe, e os que dispõem sabem dos sacrifícios que sua condição de artista sofrerá. Cito o caso de Zivé Giudice, que dirigiu o MAM por quatro anos e levou vinte anos para recuperar seu status qualitativo, que ocorre agora, somente agora decorrido quase trinta anos. Cito também o caso emblemático de Emanuel Araújo, que se tornou um dos mais eficientes e festejados curadores brasileiros. Pergunto: o que aconteceu com sua obra? Ficou refém de adornos enganosos, uma obra de anos sacrificada pela desarticulação de pensamento à própria obra por conta de seu distanciamente em relação à mesma. Um artista caracterizado pelo que um crítico americano chamou de Geometria Afetiva, eivada de proposições identitária em sua estrutura, visível como obra planejada sob o viço da africanidade pelos auspícios de suas disposições geométricas evocativas do cubismo e das recentes conquistas históricas do concretismo/neo-concretismo, uma fala afro-baiana sofisticada e bem sucedida, se vê hoje pateticamente enfeitadas de conchas em paráfrases estranhíssimas do religioso-artista Mestre Didi, que perdoem os seus construtores,o considero uma tremenda mistificação que serve à nossa ignorância pela arte e o olhar desavisado de estrangeiros duvidosos. Porque não se discute na Bahia a obra de outro sacerdote que articulou soberbamente a arte ocidental e a iconografia afro-baiana como Rubem Valentim? a Bahia deve a Rubem Valentim no mínimo uma festa de largo pelo que soube processar arrematando o saber estruturalista e seu envolvimento de corpo e alma com os símbolos e a religião afro-baiana. Falar ainda de Gestores Artistas sou obrigado a citar outras pessoas que me são caras como amigos, e também de formas diferentes sacrificados pelos seus envolvimentos com a política cultural. Juarez Paraíso teve seu gênio potencial tolhido pela política. É certo que ajudou a construir uma mentalidade baiana pelos idos dos 60, 70, mas uma mentalidade que por muitos motivos, inclusive a regência militar, nos jogou numa condição suburbana, sua inclinação xenófoba a téoricos cariocas como Paulo Sergio Duarte e Ronaldo Brito, foi um desserviço para nossa amplitude. Porque ele disse certa vez, "Deixem os sábios cariocas no lugar que lhes pertencem". Chico Liberato em duas ou três gestões foi mais aberto, nos trouxe Frederico de Moraes, o próprio Paulo Sergio Duarte, tentou trazer a rica experiência do Núcleo de Arte Contemporânea da Paraíba fundada por P. Sergio Duarte, Raul Córdula e Antônio Dias, nos trouxe de Brasília
Rubem Valentim para falar de sua obra em produtivas conferencias no MAM. Produziu a Exposição Cadastro, e algumas mostras que setorizavam conceitos da produção baiana na que considero a mais rica e ilustrativa gestão de um artista que era subsidiado pela inteligência do arquiteto Pasqualino Magnavita, ainda hoje com uma admirável lucidez com seus mais de 80 anos. Mas pergunto, onde foi parar o artista Chico Liberato, fora suas esporádicas animações? Sacrificado em produções cuja potencia pálida pelo distanciamento que produzir arte requer. Gestor de Museu jamais deve cair em mãos de artistas tão pouco Museólogos que são destituídos das noções específicas que lidar com o meio de arte em sua completude requer. A direção de um Museu deve ser exercida por um profissional que tenha em seu currículo experiência acadêmica e vivencial com os problemas da arte, conhecimento de gestão na especificidade que os problemas da arte e produção, fruição, expositividade, interatividade com outros meios, etc. Por isso sou a favor de Comissões Curatoriais como forma de descentralizar decisões nas mãos de um único gestor. Um Museu passa pela idéia de se criar discursos efetivos e articulados em espraiamentos de interlocuções com o resto do Brasil e do mundo. Pensar as especificidades da cidade e agir com pertinência às necessidades comunitárias, abrindo-as para a educação, desenvolvendo novas gerações abertas às complexidades do mundo. Ainda ontem à noite, conversava com Almandrade, pessoa que tem uma produção reflexiva sobre tais questões ao menos do ponto de vista teórico, pensa bem, e é um portador de idéias que devem ser aproveitadas no mínimo como integrante das Comissões Curatoriais que ele também é defensor. Admito um artista na gestão de políticas culturais como um ser complementar a criar e defender idéias que qualifiquem melhor nosso meio de arte, mas nunca delegar a um artista sem o devido aparelhamento as responsabilidades complexas que a gerencia cultural requer.
Vauluizo Bezerra
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
A POLÍTICA CULTURAL E OS MUSEUS Almandrade
A carta dos profissionais de museus ao Secretário de Cultura da Bahia, me fez lembrar a crítica do carioca Wilson Coutinho: “Depois que happenings e performances deixaram de ser engraçados, a instalação ocupou, até na maioria dos casos, a nova forma populista de exibição: mexe-se nela, anda-se, escuta-se barulhinhos, morde-se alguma coisa, sente-se o vento, somos obrigados a andar descalços, etc. o que tornou os museus e centros culturais verdadeiros playgrounds para alegrar o adulto idiotizado e a criança criativa”. Estamos falando de um museu específico, o de arte. Se ele é o espelho de uma produção cultural, em tal contexto, reflete o narcisismo do espetáculo, em detrimento do ponto de vista da reflexão.
A partir das décadas de 1980 e 90, foram criados centros culturais e museus, em quase todo o mundo, sem se saber ao certo o que colocar neles. Surgiu também uma nova profissão na arte: “a sua excelência, o curador... Os museus tornaram-se espetáculos que pouco importa o que se mete dentro deles...” (Coutinho). Como se não bastasse tudo isso, com algumas exceções, Tem-se a impressão de que o coquetel e presença de celebridades registradas nas colunas sociais são mais importante que a exposição.
Perdão aos profissionais de museus, por meter a colher onde não deveria, por entrar numa discussão que não é mais da especialidade e da responsabilidade do artista plástico, mas a minha intenção política não tem outro significado, senão contribuir para o debate. O fato é que, na década de 1970, quando iniciamos o nosso percurso na arte, descendentes da arte conceitual, tínhamos o museu, como um lugar de atuação e discussão, os mais politizados, até falavam de suas propostas artísticas, como intervenções materialistas na instituição ou no circuito de arte. Também não havia lei de reserva de mercado. Hoje, o artista vive à margem da república museal, também pudera, ele perdeu a consciência crítica e o discurso, passou a ser um produtor de obras voláteis, o verdadeiro bobinho da corte para animar platéias com pouco raciocínio.
A salvaguarda fica ainda comprometida, quando é o próprio artista que despreza o acervo do museu, seu material de trabalho e reflexão, ele esqueceu a lição de Cézanne que passava tardes no Louvre, contemplando a tradição para dar um passo adiante na modernidade. Sem ter o mínimo trabalho de olhar, declaram-se artistas talentosos nos sites de relacionamentos, para o K K K da platéia de amigos. O pior é que esse culto à ignorância é uma praga que está contaminando parte da chamada arte contemporânea, agentes do circuito, e até defensores de uma política cultural. Nessa confusão, o melhor gestor é aquele que faz mais festas, mais vernissages, que trás para a província novidades que já ocorreram em outros tempos, para atender outros interesses.
Os artistas visuais não chegaram a viabilizar um processo de discussão acerca de uma política para as artes, alguns arriscaram acusações, mas sem apresentar as provas. Difícil condenar o inimigo. É preciso pensar a realidade museológica e as artes visuais na Bahia. Se os artistas não articularam nenhum discurso, nem fizeram propostas, se limitaram a reivindicações, os museólogos foram mais espertos, aparelhados com a Política Nacional de Museus, acenderam a fogueira. Resta saber se a lenha vai realmente pegar fogo. Não adianta só o vento soprar, a lenha precisa estar seca.
Os museus passaram por reformas significativas nos últimos anos, ganharam prestígios e são considerados instituições culturais referência da cidade contemporânea. Surgiu até a indústria de museus, que atua mais a serviço do entretenimento e do turismo do que da memória, da história e do exercício da cidadania, mas capaz de movimentar a economia. Essa difícil conciliação cultura e economia que ocupa cada vez mais centro das atenções.
Em salvador, os museus são instalações arquitetônicas adaptadas, muitas que não atendem mais as condições exigidas de guarda e conservação do acervo, outras em condições estupidamente precárias, contrárias a tudo que recomenda as necessidades e política de museus. Temos a política, mas não temos onde aplicá-la. Será que adianta ensinar a criança a lavar as mãos antes das refeições, se em casa a água é escassa? Vamos acreditar que sim, um dia ela vai ser crescer, perceber a riqueza da água e lutar para reverter essa situação.
Na segunda metade da década de 1980, quando ocupamos o Departamento de Museus da Fundação Cultural do Estado, tendo à frente o artista plástico Zivé Giudice, defendemos a transferência do Museu da Arte Moderna do Solar do Unhão para uma edificação que atendesse às exigências da museologia, em área da cidade de fácil acesso e com um partido arquitetônico de visibilidade moderna. Fomos vencidos. Readaptado para as condições de museu, a arquitetura do Solar do Unhão foi comprometida, a escada projetada pela arquiteta Lina Bardi que dialogava com o exterior através das esquadrias, ficou estrangulada. Com poucos recursos, sem vontade política e principalmente sem vontade intelectual, os museus sobrevivem na capital da festa.
Almandrade
(artista plástico, poeta e arquiteto)
A partir das décadas de 1980 e 90, foram criados centros culturais e museus, em quase todo o mundo, sem se saber ao certo o que colocar neles. Surgiu também uma nova profissão na arte: “a sua excelência, o curador... Os museus tornaram-se espetáculos que pouco importa o que se mete dentro deles...” (Coutinho). Como se não bastasse tudo isso, com algumas exceções, Tem-se a impressão de que o coquetel e presença de celebridades registradas nas colunas sociais são mais importante que a exposição.
Perdão aos profissionais de museus, por meter a colher onde não deveria, por entrar numa discussão que não é mais da especialidade e da responsabilidade do artista plástico, mas a minha intenção política não tem outro significado, senão contribuir para o debate. O fato é que, na década de 1970, quando iniciamos o nosso percurso na arte, descendentes da arte conceitual, tínhamos o museu, como um lugar de atuação e discussão, os mais politizados, até falavam de suas propostas artísticas, como intervenções materialistas na instituição ou no circuito de arte. Também não havia lei de reserva de mercado. Hoje, o artista vive à margem da república museal, também pudera, ele perdeu a consciência crítica e o discurso, passou a ser um produtor de obras voláteis, o verdadeiro bobinho da corte para animar platéias com pouco raciocínio.
A salvaguarda fica ainda comprometida, quando é o próprio artista que despreza o acervo do museu, seu material de trabalho e reflexão, ele esqueceu a lição de Cézanne que passava tardes no Louvre, contemplando a tradição para dar um passo adiante na modernidade. Sem ter o mínimo trabalho de olhar, declaram-se artistas talentosos nos sites de relacionamentos, para o K K K da platéia de amigos. O pior é que esse culto à ignorância é uma praga que está contaminando parte da chamada arte contemporânea, agentes do circuito, e até defensores de uma política cultural. Nessa confusão, o melhor gestor é aquele que faz mais festas, mais vernissages, que trás para a província novidades que já ocorreram em outros tempos, para atender outros interesses.
Os artistas visuais não chegaram a viabilizar um processo de discussão acerca de uma política para as artes, alguns arriscaram acusações, mas sem apresentar as provas. Difícil condenar o inimigo. É preciso pensar a realidade museológica e as artes visuais na Bahia. Se os artistas não articularam nenhum discurso, nem fizeram propostas, se limitaram a reivindicações, os museólogos foram mais espertos, aparelhados com a Política Nacional de Museus, acenderam a fogueira. Resta saber se a lenha vai realmente pegar fogo. Não adianta só o vento soprar, a lenha precisa estar seca.
Os museus passaram por reformas significativas nos últimos anos, ganharam prestígios e são considerados instituições culturais referência da cidade contemporânea. Surgiu até a indústria de museus, que atua mais a serviço do entretenimento e do turismo do que da memória, da história e do exercício da cidadania, mas capaz de movimentar a economia. Essa difícil conciliação cultura e economia que ocupa cada vez mais centro das atenções.
Em salvador, os museus são instalações arquitetônicas adaptadas, muitas que não atendem mais as condições exigidas de guarda e conservação do acervo, outras em condições estupidamente precárias, contrárias a tudo que recomenda as necessidades e política de museus. Temos a política, mas não temos onde aplicá-la. Será que adianta ensinar a criança a lavar as mãos antes das refeições, se em casa a água é escassa? Vamos acreditar que sim, um dia ela vai ser crescer, perceber a riqueza da água e lutar para reverter essa situação.
Na segunda metade da década de 1980, quando ocupamos o Departamento de Museus da Fundação Cultural do Estado, tendo à frente o artista plástico Zivé Giudice, defendemos a transferência do Museu da Arte Moderna do Solar do Unhão para uma edificação que atendesse às exigências da museologia, em área da cidade de fácil acesso e com um partido arquitetônico de visibilidade moderna. Fomos vencidos. Readaptado para as condições de museu, a arquitetura do Solar do Unhão foi comprometida, a escada projetada pela arquiteta Lina Bardi que dialogava com o exterior através das esquadrias, ficou estrangulada. Com poucos recursos, sem vontade política e principalmente sem vontade intelectual, os museus sobrevivem na capital da festa.
Almandrade
(artista plástico, poeta e arquiteto)
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