Este Blog tem por função abrir reflexões e visibilizar o que se produz de arte contemporânea na Bahia. Sua estratégia principal é criar interlocuções entre artistas, críticos, curadores, poetas e pensadores da cultura de variados eixos de interesses. Este espaço será depositário de variadas formas de pensamentos que ajudem na compreensão dos processos contemporâneos que formam o perfil das ações culturais baianas e suas significações dentro do panorama brasileiro. Vauluizo Bezerra
segunda-feira, 14 de janeiro de 2019
Every Day i Have in the Blood.
Estou retomando as atividades deste Blog. Semanalmente postarei imagens e textos de minha lavra e de outros autores que reflitam sobre arte e cultura brasileiras.
domingo, 14 de outubro de 2018
domingo, 11 de março de 2012
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
DENTRO JOÃO HENRIQUE
Solange Farkas, importante curadora internacional, fundadora do Vídeo Brasil, de Feira de Santana, ex- Diretora do Museu de Arte Moderna da Bahia, numa postagem no facebook nos conclamava a acordar sobre a realidade política baiana E A situação de abandono dramático. Cumpria o movimento que muitos deflagaram no desejo da deposição do atual prefeito de Salvador. Por tal motivo escrevi este texto desbafo, contrariando o movimento que cresce a cada dia na forma de FORA JOÃO HENRIQUE!
Eu estou acordado, sempre estive, inclusive nos dias das duas eleições que o colocaram no poder, com a ajuda do Sr. Mário Kertz, que com sua experiência de radio e TV encenou seu teatro desestabilizador para favorecer este JÃO sem braço, é, não tem braço, usa rodo, para recolher seus quinhões. Parece um parvo, e o é, como o pai, que EU VI Antônio Carlos Magalhães com o dedo - o mesmo que quase furou o general no elevador - o dedo na cara do então Governador, pai deste prefeitinho de bosta, duro como um poste que ACM prometera eleger, e o fez, o poste? O Pai do prefeito, que vestido em pele de cordeiro (carneiro?) que em verdade sempre foi uma hiena, tal qual o filho, uma hiena fervorosa na fé da acumulação pela escala secundária, como uma boa hiena que vive de restos deixados pela oligarquia "aristocrática" de ACM. Neurótico, comum, sujeito sem expressão alguma, veio da crendice deste povo de Salvador que tem que se fuder com este prefeito até o final do mandato. DENTRO JOÃO HENRIQUE, tem que ficar até o final. Esta cidade não sofre com tragédias a não ser pelo seu temperamento mesquinho, pelas suas opções burras, a história prova isto, por isso tem que arder no granito de suas próprias escolhas, mesmo que custe o que assistimos, o completo abandono administrativo, a mais dramática falta de capacidade de gerência, o mais cínico e aberto apelo ao lobby escroto que ele pratica porque sabe que o povo é parvo, submisso, resignado, ignorante, vaidoso (?), egocêntrico, egoísta, ressentido, dissimulado, invejoso, mal educado, grosso, arrogante(?), roto, hedonista, superficial e tantos quantos adjetivos que a paciência permitir na classificação do prefeito e sua cidade, é, a cidade é deste patureba inculto tal qual o povo que o elegeu. Por isso digo, DENTRO JOÃO HENRIQUE, que ele assanhe a sanha das dores "hemorróidicas" desta cidade cloaca, mal lavada, fedida, urina de sua educação ordinária ejetada em suas paredes porcas por secreções tantas. Odeio admitir a afirmação do antropólogo risonho e capenga, (não sei de onde vem tanta alegria num intelectual perneta), mas ele acertou quando sempre insistiu que Salvador não é do CANDOMBLÉ, Salvador é EVANGÉLICA, por isso este prefeito. Não adianta estrilar, Ghandi não tem efeito, mesmo com tantos Filhos, Maomé tem menos correligionários que Barrabás, e o Partido de Pedro está completamente perdido em sua identidade, não sabe se Gregório ( o Papa, nunca o poeta, jamais) ou Padre Marcelo e congêneres. Agora já se fala no judeu Mário Kerts para a próxima eleição, mais um sacerdote cuja crença recai nos dotes financeiros que na fé em si, já foi prefeito, e não chegou a ser governador por impaciência e arrogância contra o velho cacique de cabeça branca, seu criador. A ressurreição paira no ar da cidade, não a ressurreição da cidade, mas dos velhos costumes que nunca foram abandonados, aprimorados sim, pela turma da esquerda que assumiu o poder no susto etílico. Na terra da fé venceram os incrédulos da ordem marxista burguesa. É, uma nova classe se criou no Brasil do BRIC, tão absurda quanto a China, e vai lá saber dos outros subdesenvolvidos entalados na merda economica sem o timão do progressivismo sacana da globalização. Mataram DEUS, os Orixás não dão conta, espera-se o Messias com os infernos nas mãos, como pano de fundo o governador carioca nunca conseguiu tranfusão de sangue baiano porque sua circulação sempre ocupada com as AGUAS DE SCOTLAND, não benta. Moral da história: A GENTE SOMOS INÚTIL, A GENTE TAMO LASCADO, e la nave va. Fui.
Vauluizo Bezerra Salvador 09.01.2012
Eu estou acordado, sempre estive, inclusive nos dias das duas eleições que o colocaram no poder, com a ajuda do Sr. Mário Kertz, que com sua experiência de radio e TV encenou seu teatro desestabilizador para favorecer este JÃO sem braço, é, não tem braço, usa rodo, para recolher seus quinhões. Parece um parvo, e o é, como o pai, que EU VI Antônio Carlos Magalhães com o dedo - o mesmo que quase furou o general no elevador - o dedo na cara do então Governador, pai deste prefeitinho de bosta, duro como um poste que ACM prometera eleger, e o fez, o poste? O Pai do prefeito, que vestido em pele de cordeiro (carneiro?) que em verdade sempre foi uma hiena, tal qual o filho, uma hiena fervorosa na fé da acumulação pela escala secundária, como uma boa hiena que vive de restos deixados pela oligarquia "aristocrática" de ACM. Neurótico, comum, sujeito sem expressão alguma, veio da crendice deste povo de Salvador que tem que se fuder com este prefeito até o final do mandato. DENTRO JOÃO HENRIQUE, tem que ficar até o final. Esta cidade não sofre com tragédias a não ser pelo seu temperamento mesquinho, pelas suas opções burras, a história prova isto, por isso tem que arder no granito de suas próprias escolhas, mesmo que custe o que assistimos, o completo abandono administrativo, a mais dramática falta de capacidade de gerência, o mais cínico e aberto apelo ao lobby escroto que ele pratica porque sabe que o povo é parvo, submisso, resignado, ignorante, vaidoso (?), egocêntrico, egoísta, ressentido, dissimulado, invejoso, mal educado, grosso, arrogante(?), roto, hedonista, superficial e tantos quantos adjetivos que a paciência permitir na classificação do prefeito e sua cidade, é, a cidade é deste patureba inculto tal qual o povo que o elegeu. Por isso digo, DENTRO JOÃO HENRIQUE, que ele assanhe a sanha das dores "hemorróidicas" desta cidade cloaca, mal lavada, fedida, urina de sua educação ordinária ejetada em suas paredes porcas por secreções tantas. Odeio admitir a afirmação do antropólogo risonho e capenga, (não sei de onde vem tanta alegria num intelectual perneta), mas ele acertou quando sempre insistiu que Salvador não é do CANDOMBLÉ, Salvador é EVANGÉLICA, por isso este prefeito. Não adianta estrilar, Ghandi não tem efeito, mesmo com tantos Filhos, Maomé tem menos correligionários que Barrabás, e o Partido de Pedro está completamente perdido em sua identidade, não sabe se Gregório ( o Papa, nunca o poeta, jamais) ou Padre Marcelo e congêneres. Agora já se fala no judeu Mário Kerts para a próxima eleição, mais um sacerdote cuja crença recai nos dotes financeiros que na fé em si, já foi prefeito, e não chegou a ser governador por impaciência e arrogância contra o velho cacique de cabeça branca, seu criador. A ressurreição paira no ar da cidade, não a ressurreição da cidade, mas dos velhos costumes que nunca foram abandonados, aprimorados sim, pela turma da esquerda que assumiu o poder no susto etílico. Na terra da fé venceram os incrédulos da ordem marxista burguesa. É, uma nova classe se criou no Brasil do BRIC, tão absurda quanto a China, e vai lá saber dos outros subdesenvolvidos entalados na merda economica sem o timão do progressivismo sacana da globalização. Mataram DEUS, os Orixás não dão conta, espera-se o Messias com os infernos nas mãos, como pano de fundo o governador carioca nunca conseguiu tranfusão de sangue baiano porque sua circulação sempre ocupada com as AGUAS DE SCOTLAND, não benta. Moral da história: A GENTE SOMOS INÚTIL, A GENTE TAMO LASCADO, e la nave va. Fui.
Vauluizo Bezerra Salvador 09.01.2012
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
VISIO.: Bienal da Bahia: um resgate necessário
VISIO.: Bienal da Bahia: um resgate necessário: Por Alejandra Hernández Muñoz A Bienal da Bahia não é um evento novo como alguns pensam, menos ainda, uma invenção de um grupo contemporân...
sábado, 29 de outubro de 2011
Vauluizo Bezerra
“Este apetite do olho, que deve ser alimentado,
constitui o valor de encanto da pintura. Este valor é, para nós a ser procurado
(...) naquilo que é a verdadeira função do órgão do olho, o olho cheio de
voracidade, que é o mal olhado.” Jacques Lacan (1)
A imagem de uma mulher em posição de mergulho, congelada no espaço, a
ânsia da queda, permanência no vácuo, ou iminência de choque sobre a rocha que
não aparece, mas é sugerida sutilmente pela fala da artista como uma
possibilidade de amplos significados, sugerem desde uma condição literal, a
situações de escopo simbólico pelas bordas da cultura, e pela projeção pessoal
e psicológica como notação de contextos que se tornam um produto da cultura
quando urdido pela arte. Corpos desmembrados expostos em sua clara condição de
escultura gerida pela polaridade dos tons da parafina e a cor do chocolate como
contraponto. A presença de impressões de imagens num contexto de quase ausência,
oriundas de matrizes para gravura em metal sobre a fosca invisibilidade da
parafina e as variáveis simbólicas contidas no chocolate. O que são estes
corpos? Que significam estas imagens que se furtam à compreensão fácil? Porque
nos intrigam mesmo sendo códigos estranhos e ainda assim insistimos em
desvendá-las? Que gravidade as reúne e, que celebração nos convida à sua
apreciação? Estas são perguntas sem respostas, paráfrase da música
de Charles Yves que ilustram bem estes trabalhos de Eneida Sanches e podem ser
entendidas como respostas sem perguntas, estendidas a toda arte
contemporânea como questões comuns a serem elucidadas a partir do drama sobre a
inteligibilidade da arte de Eneida Sanches e da arte de hoje.
Mas aqui reunimos alguns aspectos que argumentam sobre um sentido, ou
alguns dos códigos ao qual esta instalação, como toda a obra da artista, se
subordina às leis que lhe faz existir, às estratégias de suas operações
enredadas no sentido das especificidades da cultura e seus laços sociais, suas
imanências históricas, as formas como ordena seu trabalho como instrumento
mediador de sua subjetividade pessoal e a busca incessante de uma compreensão
do lugar cultural que pertence. Lida assim, com as noções de Diferença, ou o conceito do Outro; lança mão de
manifestos estranhamentos. Os deslocamentos que provoca são sua forma de
rispidez deliberada com o mundo e seu caráter ordenador, constrói assim reações
como poética combativa, centra seu interesse contra a passividade do olhar e o
acanhamento do pensar. Vejo, portanto, uma artista inscrita na idéia de
multiculturalismo, a elucidar confrontações na ordem político - social do
mundo, pelo que transcreve de específico a seu meio e, pelo que arremata nas
inevitáveis superestruturas eivadas pela globalização à qual a cultura sempre é
envolvida pelos traços de dominação e subseqüentes espasmos reativos a promover
nos tempos de hoje - com suas frenéticas mudanças - reações imediatas de
choques sucessivos tornando o tempo febril pela sua dinâmica acelerada.
A trajetória de Eneida Sanches sempre esteve ligada aos problemas do lugar cultural que envolve sua
ascendência como pessoa. Predicado e sujeito que norteiam sua
subjetividade como artista e mulher num meio cultural de aguda complexidade.
Artista que estende uma espacialidade aberta nos anos 40 pelo Modernismo no que
diz respeito às contradições embutidas nas relações culturais egressas do
colonialismo português, abrindo um País cuja função econômica se dava pela
exploração extrativista em conjunção com o comercio de humanos. Sua formação
social se cumpre na tensão entre dominantes e dominados, o entrecruzamento de
relações que constroem uma nação pela mistura indiscriminada, calcados nos
interesses de variados afetos, e discriminados em ordenações específicas
de valor em sua organização social perversa.
Assim é que a primeira das características que norteia a obra de
Eneida Sanches resume uma escolha emblemática, a escolha do conceito de Transe que corrobora muitos
sentidos, justifica variadas funções no corpo de seu trabalho como notação
correspondente às suas observações no meio que lhe circunda, e em outras
geografias que estendem sua instituição como artista universal na ordem
contemporânea. O Transe é um conceito encontrado dentro da especificidade da
religião afro-baiana, mas se dilata ao encontro do mesmo conceito em diferentes
circunstancias de culturas e tempos que usam o mesmo atributo, com suas
variadas aplicabilidades centradas na função do deslocamento dos sentidos,
considerando que esta é uma ferramenta de distanciamento que provoca um
assentamento, acomodação de entendimento com o mundo interior: este é um método
que perscruta a indução da consciência para estados alterados, como
uma abertura para o inconsciente vicejando um desmembramento da ordem
civilizatória e seus meios repressores - daí sua associação pela cultura
ocidental em sua matriz iluminista que concentrou todo o ideário modernista
progressista – com as culturas classificadas pejorativamente como
primitivistas, fora, portanto, dos quadrantes da civilizaçao
na compreensão mistificadora da cultura ocidental.
O Transe, portanto, é um
recurso que pertence à categoria da diferença, de não pertencimento ao conjunto
do universo dito civilizado, pertence ao status dos excluídos da ordem européia
na acepção moderna, e, incluídos, na acepção das minorias que regem
o espaço pós-moderno ainda confusamente mapeado pelo pensamento fragmentário,
em certa medida vitimado pela impossibilidade do discurso crítico em se adaptar
às condições refratárias da produção contemporânea. Justificaria isso, a
presença do Curador como principal agente na cena das artes visuais, operando
um tipo de organização mais associativa que analítica (função da crítica) a
reunir emissões de artistas cujos códigos personalizados parecem ocupar uma
representação secundária em detrimento do pendor da espetacularidade?
Na obra de Eneida Sanches o Transe se torna um elemento estruturante,
partindo do uso específico nos rituais do candomblé, este, incluído como fator
cultural importante pelos modernistas baianos e - liberado judicialmente de
seus impedimentos de exercícios somente nos anos 80 - subsidia sua obra como
elemento poético, usando os significados que permeiam os rituais em seus usos
prático-funcionais.
O único olhar que existe é o mal olhado, assim me parece ter
se referido Lacan no Seminário 11 (2) - a propósito da importância do olhar e
seus significados simbólicos múltiplos. A escolha do Olho de Boi como signo na obra de
Eneida Sanches é um importante elo com o simbólico agregado às especificidades
afro-baianas, como também à importância ligada ao seu próprio instrumento de
trabalho e suas implicações com a história da cultura que é impensável sua
presença sem a incidência das construções das imagens. Um repertório
iconográfico oriundo do universo da religião afro-baiana incide como uma fonte
autônoma de sua base temática centrada nesse purismo original. Todas as
argumentações presentes em seu trabalho que personifica seus perfis como obra
de escopo radicalmente contemporâneo deriva das formas como a artista negocia
as soluções e materiais envolvidos na articulação de suas formas expositivas.
Antes, é preciso situar o mais importante detalhe que funciona como
alicerce fundamental na construção formal e conceitual de sua obra: todo seu
trabalho se origina na gravura em metal, uma particularidade que assinala
qualidades conciliatórias considerando tratar-se de uma artista cujo território
de ações se estabelece na nomenclatura multicultural, região onde se deflagra
atritos que buscam acomodar adequações conceituais mais plausíveis ou
convincentes com os fluxos que permeiam as idéias ora em curso nos embates de
variadas conceituações. Aliado a isto, há que se notar nesta escolha pela
gravura, uma mídia tradicional, histórica em sua existência secular, mas que
direciona para os sensos de reprodutibilidade da obra de arte, abrindo caminhos
para uma politização relativa na produção destas imagens pelas suas disposições
em democratizar o acesso de posse a mais pessoas, além do controle do artista
gravador sobre todas as instancias da produtividade e circulação da obra. Mas
como caráter que incide sobre uma possível abertura simbólica existe uma
qualidade que só ao gravador confere e, a isto se refere Paulo Sergio Duarte
(3): “(...) o
que mais me atraia parecia tão natural para os artistas que sobre isto não se
falava ou passava despercebido: era o que havia de comum a todo gravador quando
realizava uma gravura. E o comum era essa formidável capacidade de conceber o
mundo ao contrário para que possamos recebê-lo gravado na ordem correta. Quando
poderíamos falar sobre óptica, psicanálise, teoria dos espelhos e a gravura?”
Mas em Eneida Sanches há ainda uma sobreposição nessa forma de
expressão ao contrário pela gravura: a sua obra subverte a função da gravura e
sua reprodutibilidade. Serve-se de sua condição reprodutível para outra função
típica da arte contemporânea, as disposições cumulativas. Suas tiragens não são
numeradas, perdendo-se, portanto, sua função de limite, pois seu limite se
subordina às necessidades de cumprir as espacialidades tridimensionais que a
artista articula mediante estruturas de ferro que serão portadoras destas
tiragens. Cumpre-se assim um baralhamento dos limites funcionais de cada mídia,
gravura se fazendo escultura, que por sua vez modula por agenciamentos de
cálculos, ou ocorrências de acasos aceitos, a presença da luz como elemento
gráfico-escultórico. A todos estes parâmetros um objetivo: o TRANSE por
obtenção ótica, a serviço de um simulacro extensivo ao sensorial experimentado
em situações de deslocamentos dos sentidos observados nos rituais do candomblé,
e outros exemplos citados pela artista quando situa suas influencias, seus
parâmetros mitológicos: “(...) A proposta do Transe é possibilitar ao expectador
a transposição dos limites da percepção formal, de maneira a criar novas
perspectivas visuais e a possibilitar, assim, experiências limítrofes entre o
real e o supra-real. (...) Contudo, o conceito de transe já não mais engloba
apenas o universo religioso; trata-se principalmente do transe do fazer
artístico – o transe de Glauber Rocha e de sua Terra, de Walter Benjamin nos
estudos sobre estados alterados, de Miles Davis e Clementina de Jesus.” (4)
Em suas esculturas anteriores, que ainda contaminam a presente instalação,
outras ordens funcionais são presença para explorações que estão contidas em
sua origem da matriz afro-baiana e se expandem às intenções deliberadamente
exploratórias que costuram bordas inaugurais e a inscrevem no laboratório experimental
regido por acepções de ordem coletiva agregadas a projeções de sua ordem
pessoal, de sua identificação política mediada pela especificidade de suas
leituras críticas do mundo. Assim percebemos a construção de artefatos egressos
dos rituais afro-baianos entoados sob uma poética que o distinguem das
funcionalidades de origem: roupas,espartilhos, sapatos, todo um
sortimento indumentário abrindo possibilidades parta o vazio ali
contidos, como a convidar entidades que corroboram a inteireza do
transe, a ocupação do outro na espacialidade do si mesmo, essa permissividade
tácita, função do “cavalo” que recebe a entidade,e ao tempo que tal construção
funcional do rito serve de simulacro para endereços que se direcionam para os
movimentos de nossa sociedade atual e suas valorações das minorias em gestos
inclusivos.
Como conclusão destas observações sobre esta artista baiana
emblemática pela sua coragem em fazer um tipo de arte cuja fruição ainda sofre
das decorrências de um circuito de arte deficiente sem as circulações de
informações e um aparelhamento mais eficiente para ancorar seus discursos. Além
disso, sua preocupação em estender uma compreensão do que chamo de
evolucionismo africano, pertinente à diáspora e suas diferentes Áfricas
espalhadas pelo mundo, como a própria África Continental e seus múltiplos
africanismos, sintoma desta afirmação é prova na sua participação numa
exposição em Nova York, ARTIFICIAL AFRIKA.
Ressaltar nos conteúdos de seu trabalho que “(...) aquilo que se situa
na pós-modernidade não se destina a reduzir narcisicamente a diversidade dos
discursos, nem a delinear a unidade que deve totalizá-los, mas repartir as
diversidades em figuras diferentes e descrever os diferentes espaços
divergentes. Trabalhar com a polissemia nada mais é de modo excludente. Campo
de articulação entre os vários, articula representações em regiões e contextos
diversos, uma prática relacional.” (5)
A propósito do que se reporta a autora e psicanalista Jacinta Ferraz,
o espaço da arte hoje, é um campo aberto a francas possibilidades polissêmicas,
assim, numa obra como esta é uma aventura onde se acrescenta e se exclui coisas
e conteúdos na busca da depuração, ou instauração de novas ordens discursivas.
A este respeito, as “práticas relacionais” referidas norteiam este trabalho que
se expande entre bordas, se constrói por uma natureza fragmentária pelas suas
justaposições de técnicas e mídias onde se estruturam como unidades fractais,
ao tempo que se abre para macro expansões. Uma importante superfície em parafina
gravada apontava um incomodo silencio que parecia solicitar imagens em
movimento e, para isto, Eneida Sanches convida o fotografo e vídeo- maker
nova-iorquino Tracy Collins.
Collins aponta seu olhar/lentes sobre o deslocamento numa perspectiva
de trajeto horizontal; imprime seu tempo no que extrai dentro de um trem,
absorve o ritmo de sua condução como um tempo dentro do tempo, apreende a
presença da paisagem do campo em movimento assim como as ocorrências das cenas
urbanas nas estações de trem. Capta os movimentos dos transeuntes que se
misturam às imagens captadas pelas câmeras das estações metro-ferroviárias. Um
criativo jogo de virtualidades promovido pela ativa percepção do artista pelo
que oferece o acaso. Edita estes trajetos e acontecimentos dividindo a tela em
quatro partes, fornecendo ao olhar do expectador uma experiência simultânea de
movimentos horizontais e distintas profundidades, polarizações entre o campo e
o urbano a partir da mesma posição, como a sublinhar a relatividade do nosso
olhar e as superfícies de onde vivemos, tomando o deslocamento como forma de
mensurar estas distinções. .
Num segundo vídeo, que compartilha lateralmente à mulher em queda,
Tracy Collins associa a emblemática iconografia de Eneida Sanches, as cenas dos
vídeos acima descritos com sua representação comprimida, achatadas em suas
horizontalidades e as projetando no sentido vertical, criando uma sensação ou
idéia de cenas liquefeitas, como uma cachoeira, adensando a sensação de
vertigem. São imagens que subvertem as estabilidades de suas normalidades, de
suas condições prosaicas e se dirigem para um compartilhamento, para
visualidades e sensos conceituais distintos ligados apenas por um elo, os
deslocamentos, o transe provocado pela velocidade que os deslocamentos provocam,
além dos resultados surpreendentes promovidos pela inter-relação das diferenças
entre dois artistas que comungam o jogo tácito compartilhado nas superfícies de
diferentes culturas.
Eis então uma artista que estende em seu próprio meio a matriz de reconhecimento
identitário com uma liga poética contundente e uma consciência nítida em seu
desejo de reconhecer-se em si mesma e, estender suas conquistas de
autoconsciência na ampliação dos limites e funções da arte de hoje,
contaminando-se de novos pensamentos que modulam novas formas de olhar, novos
parâmetros relacionais, a partir das especificidades de sua própria cultura, de
seus transes, sua consciência restaurada e ampliada para novos encaminhamentos
de como ver e falar de si e do mundo.
1) Lacan, Jacques. O
Seminário. Livro 11, página 112. Zahar Editora
2) Idem, página 112
3) Paulo Sergio Duarte. A
Trilha da Trama e Outros Textos Sobre Arte. (As Técnicas de Reprodução e a
Idéia de Progresso em Arte), página 201. Organizadora: Luiza Duarte. FUNARTE -
RJ
4) Entrevista com Eneida
Sanches. In Catálogo 14. Salão da Bahia. Museu de Arte Moderna da Bahia - MAM.
BA.
5) Jacinta Ferraz. Letra
Freudiana. Psicanalista e produtora de textos reflexivos sobre
psicanálise, cultura e arte. O Impacto da Diferença. Salvador,2010.
sábado, 15 de outubro de 2011
PELE Alba Vasconcelos
A fotógrafa e escultora Alba Vasconcelos tem trajetória longa, lastreada
por experiências com imagens para a publicidade, `a sua atual condição
do exercício da fotografia como mídia de expressão pura, objeto de seu
entorno subjetivo, de sua forma de ver as coisas, sua natureza e o mundo
onde se assentam.
Inscrever em seu olho repleto de cálculos - pela vivência com a mecânica
extensiva que representa o ato fotográfico em suas variantes discursivas
- uma escrita regida pela sensorialidade particular que lhe caracteriza
como fotógrafa em pleno estado de arte, vicejando particularidades que
nos fornece o discernimento específico de sua poética autônoma, é o que
entroniza este ensaio PELE.
PELE é título que carrega um sintoma, enreda as variantes conceituais
que a sua fotografia problematiza de modo sutilizado, encara a apreensão
representativa pela luz, pelas sombras, na dialética do preto e branco
eivada pelas notações da textura, sem abrir espaços para
contendas, ou imiscuir-se em categorias que as aparências podem sugerir
enganosamente. Antes, o que parece afirmar é esse trato de superfície,
essa condição táctil, reconhecimento sensível de uma topografia que quer
assinalar de modo categorico o universo feminino e seus
filtros de gênero.
A fotografia de Alba Vasconcelos se estende à tradição da historia
fotográfica baiana, não se importa com os anseios de rupturas que possam
preconizar atualizações estéreis, pois os conteúdos que lhe instam são
em si atualizadores, na forma como revelam o logos feminino operando
obturadores cujos resultados perscrutam uma mentalidade visual diferente,
ordenada por um tipo de sensibilidade e razão cujo sentido iconográfico
torna visível a diferença que deliberadamente tece.
Há neste ensaio, a percepção de um movimento, uma delicadeza que
percorre de modo exploratório essas demarcações próprias do olho
feminino, preconizando uma visão humana cujo tônus se distancia em
sutilezas da construção habitual das imagens civilizadas pelo homem,
portanto uma adição que estende a experiência das imagens em suas
prerrogativas sensoriais.
Sintomaticamente Alba Vasconcelos escolhe como capa do catalogo a
foto LIA, magistral. Enfrenta com a câmera a parede humana que é Lia, a
modelo que parece desafiar a fotografa, como se dissesse: venha, mostre
do que você é feita. Eis a foto. Nesta imagem de Lia há duas forças em
sentido contrario, de colisão, o choque, foco, é o ponto equitativo na
distancia entre as duas e o que se opera na gestão de Alba e o desafio de
LIA, a modelo. A explosão da imagem em sua mudez expõe o inefável,
o silêncio que emana um sentido humano reconhecível, mas inexplicável,
este silêncio que fala toda a eficiência de uma imagem que alcança o que
Barthes chama de sentido obtuso, aquele que não se sabe o que é, mas é.
Há um trecho no Manual de Pintura e Caligrafia de José Saramago que
diz: "Assustados e ridículos estão sempre o pintor e o modelo diante da tela
branca, um porque se teme de ver-se denunciado, outro porque sabe que
nunca será capaz de fazer essa denúncia, ou, pior do que tudo isso, dizendo
a si mesmo, com a suficiência do demiurgo castrado que se afirma viril,
A fotografia como invenção moderna, cumpre o estatuto da arte com
sua consolidação, sobretudo nos nossos tempos cuja reprodutibilidade se
amplia dramaticamente em suas variadas formas tecnológicas altamente
sofisticadas. Mas os problemas da criação são transpostos porque há
fotógrafos e fotógrafos, além de todos sermos fotógrafos. A este propósito
invoco mais uma vez José Saramago...“quando a fotografia, agora feita
arte por obra de filtros e emulsões, parece afinal muito mais capaz de
romper as epidermes e mostrar a primeira camada intima das pessoas.”*
A palavra se tornou mais impotente `as refrações da arte de hoje, mas o
olhar se consolida como instrumento letrado no reconhecimento da arte,
porque esta arte, como as fotografias de Alba Vasconcelos, estende novos
modos de ver e compreender o mundo e as humanidades que portamos;
PELE, não deixa de ser uma ironia, quando se distancia de sentidos
étnicos, e nos chama a atenção das varias camadas de epidermes pela
qual construímos novas sensibilidades para novas complexidades que nosso
tempo nos obriga a entender.
•
Vauluizo Bezerra Setembro 2011-09-08
Saramago, José. Manual de Pintura e Caligrafia pg.8 Compnhia das Letras
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
17º Festival SESC_Videobrasil - Panoramas do Sul - Premiados
17º Festival SESC_Videobrasil - Panoramas do Sul
Júri: Agustín Pérez Rubio, Bisi Silva, Gabriela Salgado, Raquel Schwartz, Galería Kiosko, Rodrigo Moura
Artistas brasileiros, sul-americanos, europeus e asiáticos dividem os oito prêmios de residência do Festival, concedidos em parceria com instituições de três continentes. Três obras receberam menções honrosas na premiação, realizada esta terça no SESC Belenzinho.
Premiados
Grande Prêmio
Akram Zaatari (Líbano, 1966), Tomorrow Everything Will Be Alright, 2010
Menções honrosas
Sebastián Diaz Morales (Argentina/Holanda, 1975), Oracle, 2009
Eder Santos (Brasil-MG, 1960), Pilgrimage, 2010
Milton Machado (Brasil-RJ, 1947) e Cacá Vicalvi (Brasil-SP, 1953), Vermelho, 2009
Prêmios de residência
Prêmio de Residência Artística FAAP – São Paulo, Brasil
Moran Shavit (Israel/Alemanha, 1982), Exploring, 2010
Prêmio de Residência Artística FAAP – São Paulo, Brasil
Natasha Mendonca (Índia, 1978), Jan Villa, 2010
Prêmio de Residência Artística – Sacatar – Itaparica, Brasil
Claudia Joskowicz (Bolívia/EUA, 1968), Round and Round and Consumed by Fire, 2009
Prêmio de Residência Artística – Kiosko – Santa Cruz de la Sierra, Bolívia
Adriano Costa (Brasil-SP, 1975), Tapetes, 2010
Prêmio de Residência Artística – Kiosko – Santa Cruz de la Sierra, Bolívia
Liu Wei (China, 1965), Unforgettable Memory, 2009
Prêmio de Residência Artística – Videoformes – Clermont-Ferrand, França
Gabriel Mascaro (Brasil-PE, 1983), As aventuras de Paulo Bruscky, 2010
Prêmio de Residência Artística – WBK Vrije Academie – Haia, Holanda (um prêmio)
Dirceu Maués (Brasil-PA/DF, 1968), Em um lugar qualquer – Outeiro, 2009
Prêmio de Residência Artística – pARTage – Flic-en-Flac, Ilhas Maurício
Carla Zaccagnini (Argentina/Brasil-SP, 1973), Bravo-Radio-Atlas-Virus-Opera, 2010
O artista libanês Akram Zaatari é o grande premiado do 17º Festival SESC_Videobrasil, com o vídeo Tomorrow Everything Will Be Alright, uma história de amor, perda e saudade que remete ao universo do cineasta francês Éric Rohmer.
Artistas brasileiros, sul-americanos, europeus e asiáticos dividem os oito prêmios de residência do Festival, concedidos em parceria com instituições de três continentes. Três obras receberam menções honrosas na premiação, realizada esta terça no SESC Belenzinho.
O júri do Festival foi composto por Agustín Pérez Rubio, diretor do MUSAC (Museo de Arte Contemporáneo de Castilla y León), na Espanha; Bisi Silva, criadora do CCA Lagos (Center for Contemporary Art), na Nigéria; Gabriela Salgado, curadora especializada em América Latina; Raquel Schwartz, artista e diretora da Galería Kiosko, em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia; e Rodrigo Moura, curador do Instituto Inhotim (Brumadinho, MG).
Panoramas do Sul e Seu Corpo da Obra
A produção artística contemporânea do Sul geopolítico do mundo e a obra do artista dinamarco-islandês Olafur Eliasson são os pontos de foco do 17o Festival Internacional de Arte Contemporânea SESC_Videobrasil.
Akram Zaatari, Gregg Smith, Marcello Mercado, Sebastian Diaz Morales, Shaun Gladwell, Galina Myznikova e Sergey Provorov, Cinthia Marcelle, Eder Santos, Marcellvs L. e Tatiana Blass estão entre os 97 artistas selecionados para a mostra Panoramas do Sul, que mapeia a produção recente da América Latina, África, Europa do Leste, Oriente Médio e Ásia.
A exposição Seu corpo da obra, primeira individual de Olafur Eliasson na América Latina, reúne dez instalações site-specific que dialogam com a cidade e com a arquitetura dos três espaços que abrigam o Festival: SESC Belenzinho, SESC Pompeia e Pinacoteca do Estado.
A 17a edição marca a transformação do Videobrasil, originalmente dedicado à produção em vídeo, no único festival de arte contemporânea nesse molde no Brasil.
"Temos sido parceiros do Videobrasil em toda a trajetória de realizações e nas diversas ações complementares, e compartilhamos da emergência que as questões da arte contemporânea têm trazido. A participação de Olafur Eliasson, artista que já constava em nossas intenções de trabalho, representa o feliz encontro dos objetivos do SESC com os novos rumos do Festival", afirma o diretor do SESC São Paulo, Danilo Santos de Miranda.
"O Festival não se abre a todas as manifestações artísticas por acaso, mas como resultado de um processo que vem acompanhando a mudança no papel das linguagens audiovisuais na produção contemporâneas", diz a curadora-geral Solange Farkas. A escolha de Eliasson como artista convidado sublinha esta mudança. "A particularidade de Eliasson é trabalhar com questões trazidas pela ciência, pelo cinema, pela tecnologia, de uma forma que já não comporta qualquer limitação por linguagem e que se impõe como experiência sensorial."
Com 130 convidados, entre artistas, curadores e pesquisadores, e exposições que se estendem até janeiro de 2012, o Festival oferece uma intensa programação educativa, que discute diferentes aspectos da produção do circuito Sul e aprofunda o debate sobre as residências artísticas e sua relação com a diluição de fronteiras na produção atual.
O 17o Festival Internacional de Arte Contemporânea SESC_Videobrasil é uma realização do SESC (www.sescsp.org.br) e da Associação Cultural Videobrasil (www.videobrasil.org.br).
Posted by Cecília Bedê at 1:25 PM | Comentários(0)
sábado, 10 de setembro de 2011
TWINS
Twins - Resina e lente fotográfica. 2010
Hoje, dia 11 de setembro, dez anos do atentado contra as torres gêmeas, o Word Trade Center em Nova Yorque,
Este foi um fato estarrecedor para todos, especialmente para mim como artista visual, que naquele
dia fui acordado `as 10 horas da manhã pela minha amiga e psicanalista Jacinta Ferraz, me
sugerindo dramaticamente que ligasse a tv. O fiz ali mesmo na cama sob os efeitos de algumas
garrafas de vinho consumidas na madrugada do dia. Me defrontei com as imagens num misto de
incerteza pelo torpor do sono e os efeitos de Baco. Pensei tratar-se de de imagens ficcionais que
lhe interessava (Jacinta) falar - como fazemos sempre - e muito das nossas conversas sobre cultura
ou psicanalise de extensão a qual ela me subsidia de importantes conceitos sobre o estruturalismo
de Jacques Lacan.
Quando percebi o significado grave do que assistia, rumei `as pressas para casa de Jacinta que
demandava apenas atravessar a avenida Centenário, e lá continuei a assistir as intermitentes imagens
transmitidas pela CNN via Globo, tomando café e pão de queijo quando presenciamos em tempo real, o alboroamento do segundo avião.
Aquelas imagens eram estarrecedoras, ao mesmo tempo possuíam algo de sublime, como a erupção de um vulcão - como o Vesuvio que destruiu Pompeia, ou as reações em cadeia das seis torres de usinas nucleares recentemente ocorridas no Japão.
O que nos atrai para as assombrosas produções hollywoodianas sobre gigantescos maremotos provocados por gigantes asteroides que se abatem sobre nosso planeta, ou o repentino desaparecimento dos dinossauros? Porque as grandes tragédias possuem este atrativo, o que nos faz ter essa relação pelo horror, esse pendor para um certo prazer oculto, misturado ao espanto, ao medo, a uma espécie de flerte com a morte como expectador de tragédias reais e virtuais? E, nestes tempos em que as distancias são diluídas e as imagens reproduzidas incansavelmente no instante presente - o que nos torna assíduos aficionados de um teatro de horrores montado a altos custos ao tempo que geram muito mais altos lucros? Estas respostas no plano simbolico estão entrelaçadas de algum modo `a fuga de nossa finitude, `a condição humana em sua relação com a morte toscamente elaborada. Espetacularizar uma guerra, como a do Golfo, associando-a `as virtualizações de um viedeo-game é no mínimo sublimar os horrores de ocorrências in loco encarando uma tragédia como um espetáculo vislumbrado pela morbidez já anunciada pelo gosto romano no circo das arenas e seus gladiadores.
Desde As Cruzadas e Saladino, a contenda cristã-mulçumana tem produzido terríveis efeitos no currículo humanitário das civilzações e suas diferenças culturais. Mas a supremacia do progresso ocidental e sua orientação do lucro como pensamento ordenador de uma civilização que tenta pasteurizar o mundo pelo poder do lucro e o cajado da democracia, tem produzido terríveis distorções políticas, culturais e religiosas. Vale ressaltar que esta abordagem sobre tais assuntos não passam de uma simplificação, reducionismo que não quer elucidar as complexidades que o tema demanda. Apenas me posiciono como artista que sofreu os efeitos do 11 de setembro como um fator paradigmático que mudou em muitos sentidos o curso do que produzo.
Como artista, meu pensamento sobre o mundo sofreu um deslocamento importante. Produzo há dez anos ininterruptamente imagens, esculturas, textos, e toda espécie de mídia que me permita reflexões sobre este estado de intolerância que se abate sobre o mundo em nome das diferenças religiosas, territorialidade, politica e economia.
Com o fim das polaridades ideológicas Russia/EUA, nasceu o que chamo ironicamente de Concílio de Washington onde surge as orientações da cartilha da globalização, uma potente camisa de força embutida na idéia de progresso disseminado ao planeta como uma promessa remissiva dos problemas sócio - economicos do mundo. Assistimos a radicalização da idéia de progresso que em realidade sancionou a lucratividade especulativa de poucos. Ao resto do mundo sobrou as repressões crescentes dos ideários do politicamente correto cobrando um alinhamento ecológico e comportamental cujas orientações nenhum país rico sanciona sua inclusão nas próprias recomendações.
Do ponto de vista da cultura, a máxima de Fukuyama traduz de certa maneira a arrogância inscrita na idéia da globalização. A morte da história, a morte da cultura, a morte da arte, são axiomas de achatamento em nome de um suposto caráter homogênio da civilização ocidental e seu desejo tentacular de amarrar o mundo. Esqueceram que os bárbaros que produziram o espetáculo mórbido que conferiu poder hegemônico e muito dinheiro `a CNN, são egressos dos mesmos povos que inventaram a escrita, a matemática, dominaram os metais, inventaram a biga, as mil e uma noites.
A imagem postada acima, é uma escultura de minha lavra, entitulada Twins. Pretende aludir iconográficamente a Venus de Millus reconhecida por sua ausência de braços perdida na história. É imagem que pretende aludir o 11 de setembro, que busca reinscrever a história, reintroduzindo o pedestal, o tempo e o simbólico da perda, assinalar que a cultura ainda é agenciada por pensadores reativos, sublinhar que a presença quase insuportável de conceitos como Diferença, Outro, Multicuturalismo e de gênero, etc., é um sintoma que se dramatiza em presença massiva há exatos dez anos para cá. Outra apropriação de tonus mais forte que preferi não postar por estar incluido na minha próxima mostra em 2012, se trata da imagem do Duplo Elvis, apropriada por Andy Warhol de um still de um filme que Elvis Presley protagoniza como ator: um cowboy que aponta sei colt 45 para o expectador. Aqui entro suprimindo seus braços e inclinando seu tronco `a maneira da Venus aqui aludida. Um cowboy sem braços, de coldre vazio, impotente e exposto em pedestais clássicos, ironia sobre a arrogância, e solidariedade sobre a perda de um povo que pode estar aprendendo que a força pode ser revertida contra si mesmo, um princípio do karatê japonês, que já acenou a este mesmo povo que a potência do progresso pode ser uma arma letal contra si mesmo, e a atual situação economica deste povo significa um tiro no próprio pé que pisou tantos, omitiu-se a outros, como os africanos e sua fome, suas guerras, que por nada possuírem nenhum interesse resvala.
Winston Churchill defendeu sua crença nos americanos por ocasião do Crack dos anos trinta. Dissera, que os americanos sempre encontram a solução para os problemas, mas antes, esgotam todas as possibilidades de erros.
O 11 de setembro é ferida aberta pelos erros americanos. Saddam Hussein foi enforcado, e o povo iraquiano se dizima aos poucos. Os americanos estão ainda esgotando os erros. Ansiamos que se encontrem logo com o acerto, porque o que sofrem hoje são leis de causa e efeito.
Hoje, dia 11 de setembro, dez anos do atentado contra as torres gêmeas, o Word Trade Center em Nova Yorque,
Este foi um fato estarrecedor para todos, especialmente para mim como artista visual, que naquele
dia fui acordado `as 10 horas da manhã pela minha amiga e psicanalista Jacinta Ferraz, me
sugerindo dramaticamente que ligasse a tv. O fiz ali mesmo na cama sob os efeitos de algumas
garrafas de vinho consumidas na madrugada do dia. Me defrontei com as imagens num misto de
incerteza pelo torpor do sono e os efeitos de Baco. Pensei tratar-se de de imagens ficcionais que
lhe interessava (Jacinta) falar - como fazemos sempre - e muito das nossas conversas sobre cultura
ou psicanalise de extensão a qual ela me subsidia de importantes conceitos sobre o estruturalismo
de Jacques Lacan.
Quando percebi o significado grave do que assistia, rumei `as pressas para casa de Jacinta que
demandava apenas atravessar a avenida Centenário, e lá continuei a assistir as intermitentes imagens
transmitidas pela CNN via Globo, tomando café e pão de queijo quando presenciamos em tempo real, o alboroamento do segundo avião.
Aquelas imagens eram estarrecedoras, ao mesmo tempo possuíam algo de sublime, como a erupção de um vulcão - como o Vesuvio que destruiu Pompeia, ou as reações em cadeia das seis torres de usinas nucleares recentemente ocorridas no Japão.
O que nos atrai para as assombrosas produções hollywoodianas sobre gigantescos maremotos provocados por gigantes asteroides que se abatem sobre nosso planeta, ou o repentino desaparecimento dos dinossauros? Porque as grandes tragédias possuem este atrativo, o que nos faz ter essa relação pelo horror, esse pendor para um certo prazer oculto, misturado ao espanto, ao medo, a uma espécie de flerte com a morte como expectador de tragédias reais e virtuais? E, nestes tempos em que as distancias são diluídas e as imagens reproduzidas incansavelmente no instante presente - o que nos torna assíduos aficionados de um teatro de horrores montado a altos custos ao tempo que geram muito mais altos lucros? Estas respostas no plano simbolico estão entrelaçadas de algum modo `a fuga de nossa finitude, `a condição humana em sua relação com a morte toscamente elaborada. Espetacularizar uma guerra, como a do Golfo, associando-a `as virtualizações de um viedeo-game é no mínimo sublimar os horrores de ocorrências in loco encarando uma tragédia como um espetáculo vislumbrado pela morbidez já anunciada pelo gosto romano no circo das arenas e seus gladiadores.
Desde As Cruzadas e Saladino, a contenda cristã-mulçumana tem produzido terríveis efeitos no currículo humanitário das civilzações e suas diferenças culturais. Mas a supremacia do progresso ocidental e sua orientação do lucro como pensamento ordenador de uma civilização que tenta pasteurizar o mundo pelo poder do lucro e o cajado da democracia, tem produzido terríveis distorções políticas, culturais e religiosas. Vale ressaltar que esta abordagem sobre tais assuntos não passam de uma simplificação, reducionismo que não quer elucidar as complexidades que o tema demanda. Apenas me posiciono como artista que sofreu os efeitos do 11 de setembro como um fator paradigmático que mudou em muitos sentidos o curso do que produzo.
Como artista, meu pensamento sobre o mundo sofreu um deslocamento importante. Produzo há dez anos ininterruptamente imagens, esculturas, textos, e toda espécie de mídia que me permita reflexões sobre este estado de intolerância que se abate sobre o mundo em nome das diferenças religiosas, territorialidade, politica e economia.
Com o fim das polaridades ideológicas Russia/EUA, nasceu o que chamo ironicamente de Concílio de Washington onde surge as orientações da cartilha da globalização, uma potente camisa de força embutida na idéia de progresso disseminado ao planeta como uma promessa remissiva dos problemas sócio - economicos do mundo. Assistimos a radicalização da idéia de progresso que em realidade sancionou a lucratividade especulativa de poucos. Ao resto do mundo sobrou as repressões crescentes dos ideários do politicamente correto cobrando um alinhamento ecológico e comportamental cujas orientações nenhum país rico sanciona sua inclusão nas próprias recomendações.
Do ponto de vista da cultura, a máxima de Fukuyama traduz de certa maneira a arrogância inscrita na idéia da globalização. A morte da história, a morte da cultura, a morte da arte, são axiomas de achatamento em nome de um suposto caráter homogênio da civilização ocidental e seu desejo tentacular de amarrar o mundo. Esqueceram que os bárbaros que produziram o espetáculo mórbido que conferiu poder hegemônico e muito dinheiro `a CNN, são egressos dos mesmos povos que inventaram a escrita, a matemática, dominaram os metais, inventaram a biga, as mil e uma noites.
A imagem postada acima, é uma escultura de minha lavra, entitulada Twins. Pretende aludir iconográficamente a Venus de Millus reconhecida por sua ausência de braços perdida na história. É imagem que pretende aludir o 11 de setembro, que busca reinscrever a história, reintroduzindo o pedestal, o tempo e o simbólico da perda, assinalar que a cultura ainda é agenciada por pensadores reativos, sublinhar que a presença quase insuportável de conceitos como Diferença, Outro, Multicuturalismo e de gênero, etc., é um sintoma que se dramatiza em presença massiva há exatos dez anos para cá. Outra apropriação de tonus mais forte que preferi não postar por estar incluido na minha próxima mostra em 2012, se trata da imagem do Duplo Elvis, apropriada por Andy Warhol de um still de um filme que Elvis Presley protagoniza como ator: um cowboy que aponta sei colt 45 para o expectador. Aqui entro suprimindo seus braços e inclinando seu tronco `a maneira da Venus aqui aludida. Um cowboy sem braços, de coldre vazio, impotente e exposto em pedestais clássicos, ironia sobre a arrogância, e solidariedade sobre a perda de um povo que pode estar aprendendo que a força pode ser revertida contra si mesmo, um princípio do karatê japonês, que já acenou a este mesmo povo que a potência do progresso pode ser uma arma letal contra si mesmo, e a atual situação economica deste povo significa um tiro no próprio pé que pisou tantos, omitiu-se a outros, como os africanos e sua fome, suas guerras, que por nada possuírem nenhum interesse resvala.
Winston Churchill defendeu sua crença nos americanos por ocasião do Crack dos anos trinta. Dissera, que os americanos sempre encontram a solução para os problemas, mas antes, esgotam todas as possibilidades de erros.
O 11 de setembro é ferida aberta pelos erros americanos. Saddam Hussein foi enforcado, e o povo iraquiano se dizima aos poucos. Os americanos estão ainda esgotando os erros. Ansiamos que se encontrem logo com o acerto, porque o que sofrem hoje são leis de causa e efeito.
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